HÚMUS — FESTIVAL LITERÁRIO DE GUIMARÃES

O autor

Raul Brandão

Jornalista, militar e autor de obras que vão do romance ao teatro, Raul Brandão nasceu na Foz do Douro, em 1867, numa família de pescadores. A meninice e o liceu foram vividos no Porto, antes de o autor de Húmus fazer uma breve passagem pelo Curso Superior de Letras. O gosto pela literatura, que despontara na juventude, acompanhou-o sempre, mesmo nos anos da Escola do Exército. É em 1896 que o alferes Brandão chega a Guimarães, concelho onde construirá a Casa do Alto, na freguesia de Nespereira, palco da criação de algumas das suas obras mais importantes. O berço da nação serviu também como pano de fundo da história de amor da sua vida: Maria Angelina, com quem se casou um ano depois, ali nascera e crescera. Raul Brandão escreveu para vários jornais e revistas, tendo sido um prolífico escritor de prosa, dentro e fora das páginas dos muitos livros que publicou. Reformado da carreira militar em 1912, fez parte do grupo dos Nefelibatas, encetou a redação das suas memórias e não terminaria a vida sem deixar também — a meias com a esposa e companheira devotada — uma marca indelével na literatura infantil. Portugal Pequenino, título que deu às aventuras de dois gaiatos pelos céus e terras nacionais, é o retrato do amor pelas coisas simples, sinceras e perenes da humanidade e do seu país, onde sempre será lembrado como um grande homem, antes do epíteto irrefutável de grande escritor.

Raul Brandão

cronologia

1867

Nasce no Porto, a 12 de março. Filho do pescador José Brandão e de Laurentina Ferreira de Almeida, vive os seus primeiros anos na Foz do Douro.

1877

Raul Germano Brandão, nome completo do futuro romancista, inicia o curso dos Liceus no Colégio de S. Carlos, na Cidade Invicta; três anos mais tarde, torna-se aluno do Liceu Central do Porto.

1885

No início do ano, publica o primeiro texto na revista escolar O Andaluz, criada «a favor das vítimas do terramoto da Andaluzia».

1888

Frequenta o Curso Superior de Letras por curto período. Ingressa voluntariamente no Regimento n.º 5 de Caçadores de El-Rei, no Porto, de onde passaria, dois anos volvidos, para o Regimento de Infantaria n.º 18, na mesma cidade.

1890

É publicado o seu primeiro livro, Impressões e Paisagens, uma coletânea de contos.

1891

Entra na Escola do Exército, publica Vida de Santos e inicia, com outros escritores, a redação do panfleto Os Nefelibatas.

1893

Tendo iniciado as suas colaborações jornalísticas na República Portuguesa, estende-as, entre 1893 e 1894, ao Correio da Manhã e à Revista de Hoje.

1896

Depois de publicar o seu segundo livro, História dum Palhaço, e concluído o estágio na Escola de Infantaria em Mafra, é colocado em Guimarães, recebendo a promoção a alferes. Menos de um mês depois, conhece Maria Angelina, futura esposa, numa festa de caridade. Sobre ela, nos dias seguintes, escreve um conto que seria publicado no Correio da Manhã, um dos seus muitos pousos como jornalista, intitulado simplesmente «Maria».

1897

Em março, casa-se com Maria Angelina.

1899

A sua peça A Noite de Natal é levada a cena no Teatro Nacional D. Maria II.

1901

Acabada a escrita de Os Pobres, é promovido a tenente e é colocado, a pedido, na capital. É neste período que faz secretariado de redação no jornal O Dia e publica O Padre.

1902

Intensifica a sua colaboração com a imprensa escrita e participa na organização de livros de leitura escolar. No Teatro D. Amélia, estreia O Maior Castigo.

1903

Publica mais um livro, A Farsa.

1906

Parte, com Maria Angelina, para uma viagem por terras italianas, tomando o barco depois da publicação de Os Pobres.

1911

Promovido no ano anterior, reforma-se no posto de capitão. É neste ano que se despede para sempre de pai e mãe, cujas mortes acontecem com menos de um mês de diferença.

1912

Assenta arraiais, em definitivo, na sua Casa do Alto, na freguesia de Nespereira, Guimarães, embora continue a passar as temporadas mais frias em Lisboa. É publicado El-Rei Junot.

1914

Publica A Conspiração de 1817, que em 1917 conhecerá uma segunda edição com o título A Conspiração de Gomes Freire.

1917

Chega à livrarias Húmus, aquele que é, até hoje, o seu livro mais conhecido.

1919

Publica o primeiro dos três volumes das suas Memórias.

1921

Publica, no primeiro número da Seara Nova, Sombras Humildes — Páginas de Memórias.

1922

História dum Palhaço, livro que publicara no início da carreira literária, começa a ser lido nas páginas de vários números da Seara Nova.

1923

Manifestam-se os primeiros sinais da doença que lhe tiraria a vida. Com Maria Angelina, devolve a visita de Teixeira de Pascoaes, que passara uma estadia na Casa do Alto. Ao mesmo tempo que o primeiro volume de Teatro é posto à venda, juntamente com Os Pescadores, é eleito sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa.

1924

Ao lado da mulher, segue viagem para a Madeira e os Açores, périplo de verão que durará mais de dois meses.

1926

Depois de ver editado o segundo volume das suas memórias em 1925, publica As Ilhas Desconhecidas e reedita História dum Palhaço, de 1896, agora com o título A Morte do Palhaço e O Mistério da Árvore, cujo original sofre várias alterações e recebe novos textos.

1929

Depois de publicar a tragicomédia Jesus Cristo em Lisboa (1927), é agora a vez de ser editado O Avejão. Termina, com Maria Angelina, aquele que seria o último título a chegar às livrarias antes da sua morte, Portugal Pequenino.

1930

Dedica-se a escrever O Pobre de Pedir, ao mesmo tempo que é publicado Portugal Pequenino. Aquele só conheceria edição depois da morte do ficcionista. Acompanhado pela esposa, vem para Lisboa, onde Pulido Valente lhe presta cuidados de saúde, na sequência de uma síncope, na véspera da sua morte. Viria a ceifeira encontrá-lo na casa de São Domingos, à Lapa, e é ela quem leva a melhor sobre Raul Brandão  na noite de 4 para 5 de dezembro, com um um aneurisma dissecante da aorta. Morria assim, aos 63 anos, um dos maiores vultos da literatura portuguesa.

1931

A Seara Nova dá à estampa O Pobre de Pedir, publicando também o último volume das Memórias, Vale de Josafat. Maria Angelina, viúva do prolífico escritor, viveria ainda muitos anos, até completar o seu 95.º aniversário.

Raul Brandão